Rafael Marcus Chiuzi é Psicólogo, mestre em psicologia da saúde pela Universidade Metodista de São Paulo, já ocupou posições executivas na área de Recursos Humanos e atua como coach e consultor em comportamento organizacional. Professor de psicologia organizacional e do trabalho e gestão de recursos humanos da Universidade Metodista de São Paulo. Leia mais...

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Motivação: use com moderação PDF Imprimir E-mail
Escrito por Rafael Chiuzi   
Qua, 15 de Julho de 2009 20:11

Escrito por: Rafael Chiuzi

A motivação é objeto de estudos de diversas áreas científicas atualmente. Oriundo do campo da psicologia este fenômeno virou elemento de cobiça de várias áreas do saber ligadas às organizações. Desde Abraham Maslow com a hierarquia das necessidades e McClelland na década de 60, Fredrick Herzberg com os fatores higiênicos e motivadores em 1968 e Bandura (1982) com a teoria da auto-eficácia, os gestores de organizações vêm caçando uma aplicação prática (e lucrativa) deste conceito.

Desde então, os chamados “gurus”, na falta de uma denominação melhor (mais completa), engordam suas contas bancárias com palestras a preço de ouro teatralizando a fantasia pueril de que vão motivar os funcionários de qualquer organização do mundo a qualquer preço (desde que seja pago à vista). Logo a motivação vira um commoditie, vendido, negociado, emprestado e aplicado por alguns falsos profetas dotados de boa oratória e presença de espírito. Fato este que me motivou a escrever este artigo.


Mas a motivação não é algo bom? Claro que sim, caso contrário não conseguiríamos levantar de nossas camas pela manhã! O que não é bonito de se assistir é uma legião de empresas tentando motivar a qualquer custo seu “capital mais precioso” - o funcionário (que algumas empresas, mesmo extremamente ditatoriais, insistem em chamar de colaborador), idealizando a figura de um trabalhador perfeito, que não toma cafezinho, que não vai ao banheiro, que não sai mais cedo (sempre mais tarde) e que acima de tudo não reclama – porque é um funcionário motivado (ou um cyborg digno de filmes de ficção científica).
 
Ora, por favor, nosso bom senso está cada vez mais adormecido  e opaco, porque vivemos num mundo real, onde pessoas reais têm empregos reais com desilusões amorosas, desilusões no trabalho ou mesmo num mundo onde simplesmente acordamos de mau humor – será que não é mais permitido estar de mau humor? – cuidado com a advertência! Mau humor pode ser sinal de desmotivação, e esta palavra já é sinônimo de heresia nas principais organizações mundo afora.


Esquecem-se de que muitas vezes o trabalhador não precisa levar uma injeção de motivação a cada trimestre – sim, porque a palestra motivacional é uma injeção, com prazo de validade, contra indicações e tudo mais! E assim como toda injeção, pode se tornar um incômodo gigantesco para alguns tomá-la periodicamente, uma via-crúcis.


O indivíduo que leva o sobrenome da organização personificado em sua existência agora vira espectador de um show de horrores, onde o ator principal é ele, porém, no sentido negativo - como negativo? Ora, pegam o indivíduo, colocam-no em um auditório e o fazem escutar por 50 ou 60 minutos tudo o que ele poderia ser, e não o é, tudo o que ele deveria fazer, e não faz. Impinge-se desta maneira um dolo que até então ele não trazia consigo, mas que agora pode ter certeza será incorporado no cotidiano do trabalho.

Tem-se desta maneira um efeito iatrogênico nestes trabalhadores, que agora possuem uma cartilha sobre o que fazer e o mais impressionante – Como Estar! Esquecem-se de que estamos falando de seres humanos, seres de desejo contínuo e que precisam ser assim porque esta é a condição psíquica básica do ser humano - estamos sempre querendo algo.

A fantasia onipotente é a de que o funcionário entra na palestra desmotivado e sai motivado (e sabendo como motivar os outros) como numa linha de produção digna de Charles Chaplin em “tempos modernos” - claro que com a desvantagem de sair de lá com uma culpa que o aniquila por dentro,  porque agora o responsável por não ser motivado, ou por não motivar a equipe é toda dele... Do trabalhador.


A situação é cômica se não fosse trágica no sentido feliniano da coisa, temos o sujeito que é investido psicologicamente sem ao menos perguntar se ele assim o deseja. Pois bem, é aí que entram os fatores críticos! pois se este indivíduo já encontra-se numa situação onde não está nas melhores condições psíquicas ele é um sério candidato a um surto temporário. Você não ouviu falar? O fulano do financeiro pediu demissão e largou da mulher! A Gerente gritou com a equipe e saiu correndo da empresa dizendo que precisava de ar!

E assim, sem o menor cuidado continuam distribuindo injeções independente da vontade dos sujeitos, contribuindo para que estes entrem desmotivados e saiam imbuídos numa fase maníaca que pode durar semanas ou meses (dependendo do prazo de validade da injeção e da condição psicológica destas pessoas) fase esta que pode acarretar em seqüelas relativamente severas para o resto de sua vida profissional e pessoal.

Muitas vezes é exatamente o sentimento que possuímos de sermos invulneráveis que é exacerbado em programas motivacionais. Teóricos dizem que todos nós temos um senso de invulnerabilidade (Chiuzi, 2008; Siqueira, 1995; Bulman & Frieze, 1985) ou seja, uma idéia de que eventos ruins tendem a acontecer com outras pessoas, mas não conosco. Pois bem, o efeito de um programa de motivação intenso tem a capacidade de potencializar este senso, fazendo com que este trabalhador saia de lá crendo ser capaz de tudo, tudo! E é irônico que são exatamente os motivados (sem as menores condições) que acabam cometendo o maior número de erros prosaicos e frívolos, sendo conseqüentemente demitidos em razão disso pela própria empresa que arcou com os custos da “motivação” dele.

A frase de ordem na atualidade é “Você pode!”, mas será que alguma vez param para perguntar “Você quer?” creio eu que nunca, porque sempre temos a crença de que sabemos o que é melhor para o outro, porém, em contrapartida ironicamente nunca sabemos o que queremos ou mesmo o que precisamos.

E assim segue a vida o funcionário motivado (com um motivo para a ação disse um guru em uma palestra que assisti certa vez), porém, o motivo nem ele mesmo sabe na maioria das vezes, o motivo é algo externo, algo análogo à carga que é colocada no lombo dos animais para o transporte – ora, já que o mundo organizacional venera metáforas que comparam pessoas à animais (gansos voando, ratos e seus queijos e muitas outras) porque não comparar este funcionário à um animal de carga? Chocante sim, inverdadeiro não.

Pensem bem, o burro de carga não sabe porque está carregando aquele peso extra, ele está carregando porque ele PODE! Porém, também sabe que se não o fizer vai pagar o preço (podem ser algumas chicotadas), mas é claro que nós, seres humanos, somos muito mais espertos e civilizados, dotados de inteligência e capacidade analítica. Tenho certeza de que em uma empresa onde o trabalhador que não fizer o que lhe foi ordenado não sofrerá represálias de nenhum tipo – às vezes a ironia pode ser muito educativa não concordam?

Bom, vou encerrando este texto porque senão começo a ficar desmotivado... E nós não queremos isso não é? Pois bem... Se você é um trabalhador e leu este texto, a mensagem que gostaria de lhe deixar é: Pense bem sobre a motivação, reflita! Mas se você é um gestor, administrador, gerente ou apenas chefe mesmo, e é responsável por uma equipe de pessoas a mensagem é: Pense bem sobre a motivação, reflita! Me despeço aqui e até a próxima vez.

Comentários
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Natacha   |189.55.213.xxx |2009-07-15 19:59:23
Na verdade o artigo alerta o que vem acontecendo nas empresas ao longo dos anos,
é bem verdade que é imposto ao funcionário uma série de "tratamentos de
choque" que têm por finalidade a tão discutida motivação...mas a que
preço?
Parabéns pela abordagem!
Rafael Chiuzi  - Ainda acontece!   |189.19.240.xxx |2009-07-16 11:37:35
Gostei muito da expressão "Tratamento de choque" e não poderia
concordar mais... infelizmente há gestores que adoram ser enganados com uma boa
palestra motivacional!!!
Oswaldo Martins  - Parabéns   |200.155.126.xxx |2010-07-21 08:52:44
Professor Rafael... brilhante texto. Concordo plenamente com esta abordagem... e
muitas vezes já fui massacrado por isso, porque as pessoas e as empresas gostam
de se enganarem com estas "injeções de motivação". Professor Rafael
sempre brilhante !!!
Marisa  - Pode ser o cacete?   |200.18.248.xxx |2010-08-25 17:35:22
Participei de uma integração que durou 15 dias! Abordaram temas ligados aos
direitos humanos, principalmente o direito à personalização, era uma entidade
de atendimento sócio-educativo; todos, exceto os que já haviam trabalho ali,
não se motivaram. Na anuência de vagas, ocorrida anteriormente ao treinamento,
optei por uma vaga no RH em detrimento de uma outra na Escola de Formação e
Capacitação Profissional que me pareceu bastante interessante, quando cheguei
para assumir o meu posto, mandaram-me para o arquivo do Departamento Jurídico,
em caráter definitivo, sob alegação de que a demanda de trabalho ali era
maior; o flamigerado arquivo possuía mais de sete mil processos em ativo, em
total desordem, e eu sozinha, seria a "responsável" por ele, perdi o
meu nome, pois me chamavam de a "moça do arquivo" ou a
"responsável pelo arquivo". Afora, que ordená-los era tarefa
impossível, ...
Rafael Chiuzi  - RE: Marisa   |201.74.33.xxx |2010-08-25 22:55:43
Olá Marisa,

Que situação hein!!! realmente o discurso que ouvimos na
maioria das vezes se afasta da realidade com tamanha brutalidade que nos
desperta sentimentos parecidos com o que você nos relatou aqui... infelizmente
ainda vivemos em uma época onde muitos gestores crêem na incapacidade de seus
trabalhadores postando-os a categoria de incompetentes e míopes. Felizmente
temos estes espaços para dar voz e vazão a nossos pontos de vista (cada vez
mais ouvidos).
Glauco  - Limites   |201.74.70.xxx |2011-03-11 13:56:23
O que acontece?
Na atual situação contemporanea. A competição faz com que a
motivação exagerada da essas injeções de maneira descoordenada nos
funcionários fazendo do que os mesmos mantem a energia ou alguns ganham ainda
mais para produzir cada vez melhor e com mais rapidez. Nunca até o momento fala
da pergunta , voce quer? Pois provavelmente vai haver muita polêmica e isso as
empresas que evitarem até o momento pois elas não querem perder tempo . Pois
segundo o proverbio tempo é dinheiro. Resultando nisso começam as surgirm os
surtos e nisso que as corporações devem enxergar para solucionar evitando que
os ocorram.
Por tudo tem o limite e as motivações creio eu , nesse ponto, ja
ultrapassa o mesmo.
Débora Gama  - É para se pensar....   |201.95.36.xxx |2011-03-12 21:11:47
Realmente foi uma ótima abordagem... Muitos de nós não param para analisar a
motivação deste ponto de vista. O que acontece com alguns gestores
(principalmente aqueles que adoram relatórios do tipo "quantitativos",
e que se esquecem de que não podemos medir o nível de dano que um emprego
massacrante pode causar a vida pessoal do funcionário)é que parece que a cada
dia que passa, preocupam-se menos em encontrar pessoas com o perfil adequado
para determinada função e preferem acreditar na premissa de que com boa
motivação ou lavagem cerebral, são capazes de manipulá-las para que elas se
enquadrem no perfil que precisam porque "PODEM". É comum ouvirmos aonde
devemos querer chegar em nossas carreiras e parece loucura irmos contra o ideal
do executivo bem sucedido no qual nem todos parecem dever se encaixar. Quando
digo que pretendo fazer Psicologia para apenas lecionar ou trabalhar em um
hospita...
Gustavo Tikao   |201.74.4.xxx |2011-03-15 20:27:02
Realmente, ótima abordagem! Não dá pra medir tudo e todos com a mesma régua!
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